Revisão orçamentária: corte ou extinção?
No corte de 95,6% no orçamento do Ministério do Turismo, anunciado pelo governo em janeiro, reside algumas questões cruciais sobre as quais a hotelaria nacional e a indústria do turismo gostariam de esclarecimentos. Fomos surpreendidos e estamos com receio que a médio, e longo prazo, o país volte ao patamar dos anos 80, época negra para o setor. A primeira questão é o tamanho do corte. Sua profundidade praticamente se caracteriza como uma extinção. Também não podemos esquecer que outro corte orçamentário vultuoso, de 94,5%, no Ministério dos Esportes, também está associado ao turismo, já que o país se prepara para sediar a Copa do Mundo, evento intimamente ligado ao setor.
O outro ponto básico é o nítido desprestigio político da indústria nacional de turismo, pois essa medida demonstra claramente que o governo não reconhece a importância do setor para a economia. A prova desse equívoco é o tamanho do PIB do Turismo que chega a 24,5 bilhões por ano, considerando-se apenas locação de autos, passagens aéreas e hospedagem, entre outros números representativos como os da Organização Mundial do Turismo que apontam um crescimento de 100% da receita do setor no Brasil entre 2003 a 2007, passando de 2,5 bilhões de dólares para 5 bilhões no período. Outro número que comprova um aumento na demanda pelo Brasil como destino é que, segundo estudo realizado pela UNICAMP, desde 2002, os gastos anuais de turistas estrangeiros no Brasil cresceram 116%.
Não somos inocentes e sabemos que o contingenciamento é uma prática habitual no Brasil, mas até março, quando poderá haver uma revisão, já perderemos cerca de 25% do orçamento. Porém não podemos esquecer que hoje estamos realmente comprometidos com o nosso futuro. A realização da Copa do Mundo no Brasil em 2014 e a candidatura do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olimpíadas de 2016 estão nos dando uma oportunidade única de mudar o cenário turístico brasileiro. Exemplos não faltam. Podemos citar a Espanha, Alemanha, Austrália e a China. Todos esses países elaboraram e seguiram um plano de metas, iniciado assim que foram escolhidos como sede de grandes eventos. Nesse momento ímpar que atingimos, é crucial que divulguemos nossas potencialidades e evidenciemos nossa vantagem competitiva.
Prejuízos em função dessa contenção se estendem pelo Brasil afora. Florianópolis, por exemplo, foi eleita pelo New York Times como um dos 24 principais destinos do mundo. Como aproveitar essa situação sem divulgar o destino no exterior? E o Plano Aquarela - estudo que orienta a estratégia de promoção do Brasil no exterior - em que se previam investimentos de 88 bilhões de dólares até 2010? E a Agenda de Promoção Comercial para a Europa no primeiro trimestre e outras ações programadas para 2009? Ficarão paralisadas?
Após o carnaval, tem inicio a baixa temporada para os destinos turísticos, para a hotelaria e para as passagens aéreas. Também estarão mais definidos os resultados do pacote americano para a economia mundial, os reflexos na Europa e como isto repercutirá no Brasil. Esses dados construirão o cenário nacional e possibilitarão uma percepção mais clara. As novas lideranças na Câmara e no Senado também são fatores que podem influenciar a postura do governo. Vamos aguardar e torcer para que as autoridades ligadas ao turismo nacional não desperdicem essa chance de ajudar o país a enfrentar a crise que se avizinha, para que o Brasil não perca oportunidades, nem agora e muito menos no futuro.
Álvaro Bezerra de Mello
Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis - ABIH Nacional |